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quinta-feira, 30 de julho de 2009

Sobre o "fim da profissão de jornalista"

Após os profusos — como sempre o são — debates e tantas outras espúrias abordagens sobre o caso na grande mídia, os rumores parecem, enfim, terem cessado no tocante à convulsiva decisão do Ministro do STF, a qual tirou-nos o chão.

Densas massas foram mobilizadas em torno do assunto, fez-se um rebuliço e a poeira subiu...e baixou. Todavia, não arrefeceu a indignação de milhares de jornalistas brasileiros que viram seus esforços e afinco para com uma profissão na qual acredita(va)m e à qual se dedicaram desfalescerem-se, irem-se por água abaixo.

Conforme ponderação muito bem fundamentada de Alberto Dines, bem como dos demais que escrevem ao Observatório da Imprensa, a sólida argumentação do juíz da instância-mor do judiciário brasileiro, cuja decisão é irrevogável, não atentou a alguns pontos cruciais no emaranhado de argumentos concatenados em vias de perpetrar a derradeira deliberação.

Assistindo à entrevista com o ministro Marco Aurélio de Mello ontem à noite no Observatório, por instantes desejei fosse ele a ocupar a cadeira do poder máximo do judiciário. Com maestria e bom-senso, o ministro falou a Dines em pormenores, numa aprazível entrevista. Uma "aula", como bem definiu o veterano do Observatório.

Decerto não houve bom-senso nessa pérfida e insana decisão do STF, não obstante a vasta argumenteção que conduziu o ministro do supremo ao veredicto infortunado — sob alegação de inconstitucionalidade da exigibilidade do diploma de jornalista para o pleno exercício da profissão.
Com a desregulamentação, o não reconhecimento do jornalismo pelo Estado brasileiro configura vil desrespeito a uma profissão cuja relevância se evidenciava desde o tempo das Actaes Diurnaes romanas.

A ausência de uma regulamentação profissional, já que a categoria caiu, vai dificultar mesmo o trabalho do judiciário em julgamentos envolvendo questões de imprensa e jornalistas, uma vez que não haverá respaldo legal de que se valham os juízes para avaliar e devidamente julgar à luz da ética e da cidadania — pelas quais o Direito, assim é desejável, opera e se orienta. Ora, a que critérios recorrer-se-á para essa sorte de julgamento? À arbitrariedade?

Tendo sido o único dos onze ministros do STF a votar pela manutenção integral da Lei de Imprensa, Marco Aurélio teceu críticas ao julgamento da questão da obrigatoriedade do diploma, corroborando o reconhecimento do esforço feito pela aquisição de, mais que um diploma, aptidão e preparo para o exercício de uma profissão de tamanha relevância social, como o é o jornalismo:
"Alguém que ingressa em uma faculdade de Comunicação não fica quatro anos dentro de uma sala de aula ouvindo simplesmente ‘abobrinhas’. Há uma formação. E a formação resulta em uma consequência, uma segurança maior ao atuar. E ao atuar com repercussão inafastável considerada a formação de opinião dos cidadãos em geral"
Na entrevista, o ministro pontuou que, apesar de a decisão não poder ser revogada, nem tudo está perdido! Isso porque há possibilidade de recorrer, em vias legislativas, mediante emenda constitucional a ser votada. Resta-nos confiar na sobriedade dos nossos magistrados e do ministro Gilmar Mendes e exortar-lhe a que não decepcione a categoria jornalística novamente, uma vez tendo a oportunidade de reaver o equívoco cometido.

Que o legislativo proponha impreterivelmente uma emenda a fim de reaver o dano causado a todos os estudantes de jornalismo e profissionais.
Não! não fazemos corte-e-costura. Sim! os jornalistas merecem o devido reconhecimento pelo exercício de uma profissão vital para a sociedade, e a população brasileira merece informação de qualidade.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Chronique - L'individualisme à la française

"L'individu s'oppose à la collectivité, mais il s'en nourrit.Et l'important est bien moins de savoir à quoi il s'oppose que ce dont il se nourrit".
― André Malraux (écrivain)
("O indivíduo se opõe à coletividade, mas se alimenta dela. E é bem menos importante saber a que ele se opõe que do que ele se alimenta").
Nos tempos hodiernos é o "eu" quem costuma prevalescer sobre o senso coletivo d'outrora. O iluminista convencionou chamar por individualismo essa prevalescência do "eu".
Montesquieu, Voltaire, Diderot, Rousseau são desse tempo. E o que eles têm em comum? Ora, todos viveram no "século das luzes", e não só; na França. Daí uma tradição cultural delineou-se séculos a fio, e até hoje costuma-se dizer dos franceses um povo individualista. À reflexão sobre esse lugar-comum, ele não esconde muito a ser refutado não. Aliás, sob um certo aspecto, é bem verdade que o são. Quem já respirou os ares franceses por um bom tempo afirma sem titubear que os franceses são deveras individualistas: são capazes de conviver com as mesmas pessoas todos os dias e não se falarem; de tomar o mesmo TGV (o Train à Grande Vitesse - um tipo de metrô de alta velocidade) itinerário Paris - Bordeaux, por exemplo, fechados em seu "eu". Mas isso não é só lá. Pensando bem, a sociedade contemporânea está configurada nesses moldes. É-se individualista em toda parte, havendo tão-somente algumas variações. No Brasil talvez essa individualidade seja um pouco menor. Haja vista eu, por exemplo, não fico tagarelando com a pessoa que ocupa o assento ao lado do meu na condução — embora vez ou outra dou o azar de estar num ônibus onde um-alguém-desconhecido-que-tem-necessidade-de-se-fazer-conhecer-e-notar-a-todos também esteja dando o ar da graça. Sabe aquelas pessoas vindas sabe-se donde num momento inesperado e que do nada nos contam a vida em alguns minutos?! Pior que isso acontece, e como!
Por outro lado...os franceses reservados e introvertidos são os mesmos que se reúnem em festivais e datas comemorativas, eventos nacionais ou esporádicos (como foi o caso da vitória da equipe francesa de futebol na copa do mundo de 1998, que os brasileiros só querem é esquecer) e cantam, dançam, se divertem, celebram, e compartilham de um inacreditável espírito comunitário. O cidadão francês está no coeur da vida política, milita pelas causas que defende e ganha às ruas com expressividade, fazendo jus ao lema de sua bandeira, cunhado quando da revolução francesa: liberté, égalité, fraternité. É entre extremos de uma dicotomia que essa França se nos reafirma em toda sua diversidade. Individualistes et en même temps convivials ; cela dépend du point de vue.



sexta-feira, 15 de maio de 2009

Une jeunesse puissante

Seria possível traçar um perfil da juventude francesa?
O que pensam os jovens de lá, o que anseiam, do que gostam, como vivem...
Tudo isso é muito difícil de aferir, mesmo porque estamos falando de uma juventude muito diversificada, como a nossa, mas talvez o que a difere da nossa seja justamente sua austeridade. Não esqueçamos qua Paris foi o coeur do emblemático episódio de maio de 68, o seio de um movimento contracultural de magnitude ímpar — cuja repercussão se faz perceber ainda hoje.
O que parece mais evidente nesse paralelo é a voz forte que eles têm, bem como o não-conformismo diante das injustiças sociais. Numa realidade na qual cada vez mais as pessoas têm capacidade de se indignarem e, ao mesmo tempo, não irem além do sentimento de indignação, os jovens franceses demonstram não terem perdido o espírito reacionário. Se há algo errado, eles não engolem mesmo, e movem céus e terra para fazer valerem seus direitos.
Achei no blog Agit Moura um texto opinativo sobre revoltas sociais mais recentes na França.